sexta-feira, 29 de março de 2013

The Cat (Go-Hyang-i)

So-Yeon (Park Min Young) sofre de claustrofobia devido a um acidente traumático que ocorreu quando criança. Ela trabalha em um pet shop e um dia um gato chamado Bidanyi entra na loja, no dia seguinte, a proprietária de Bidanyi é encontrada morta em um elevador. So-Yeon, por solicitação do policial Joon-Suk, leva o gato para casa, pouco mais tarde, So-Yeon começa a ver um espírito de uma menina. Sua amiga depois de adotar um gato também é assombrada por um espírito, So-Yeon agora teme pela própria vida e por isso começa a investigar o que há por trás desses gatos amaldiçoados.
O cinema sul-coreano é conhecido pelos filmes de vingança e terror, pelas tramas bem elaboradas, fotografia impecável e os grand finales, além do sucesso de crítica e público. Toda vez que me deparo com um filme vindo de lá a minha curiosidade se aguça e logo prevejo uma obra-prima. Mas acontece que até os grandes erram a mão de vez em quando, e isso aconteceu com "The Cat", que inicialmente dá a impressão de ser um filme misterioso por envolver gatos. Muitas pessoas detestam esses bichanos por achar que são traiçoeiros e sempre os assimilam ao mau, nunca ao bem.
A história começa num nível de suspense alto e o problema consiste nisso, pois no desenrolar ele não consegue mantê-lo e assim se torna enfadonho. A fórmula do filme lembra muitos outros, uma criança bizarra que faz breves aparições, uma mocinha curiosa, o mocinho que quer ajudá-la e pronto. Há um ou outro susto, mas no geral o filme se arrasta numa história sem lógica em torno de personagens chatos, que derrubam, na maior parte do tempo a atmosfera assustadora do filme. Os efeitos não são lá grande coisa e transforma boa parte das cenas em situações risíveis.
O filme não atiça nossa curiosidade em descobrir qual a relação que há entre os gatos e a menina fantasma, e principalmente do porque que as mortes ocorrem. O final é esquisito, So-Yeon acha a criança morta depois das pistas que seguiu e de certa forma a liberta.

Terror é um gênero que cada vez mais está difícil de achar coisas boas e originais. As histórias são diferentes, mas os elementos são os mesmos.
"The Cat" não chega a ser ruim, tem seus momentos interessantes, mas não consegue sustentar o suspense. Vale pelos gatinhos!

quarta-feira, 27 de março de 2013

O Impossível (Lo Imposible)

 
O Tsunami que aconteceu em 2004 foi a maior tragédia natural ocorrida até hoje, matou cerca de duzentas mil pessoas. Difícil imaginar que uma família inteira pudesse sobreviver, mas é exatamente isso que acontece, a família espanhola sobreviveu ao caos e agora é retratada cinematograficamente pelo diretor Juan Antonio Bayona.
Filmes que envolvem catástrofes naturais são sempre interessantes, ainda mais quando o fato é baseado em uma história verídica. Ultrapassar as barreiras de sobrevivência, esquecer a dor física, a sede, a fome para poder seguir e encontrar um lugar "seguro". A personagem Maria interpretada por Naomi Watts demonstrou perfeitamente isso.
"O Impossível" (2012) conta a história de um casal que resolveu passar férias na Tailândia e vivenciou o pior desastre natural do novo século: o tsunami da Indonésia. Hospedados com os três filhos pequenos num resort, eles sobreviveram à onda, mas se perdem um do outro, o que acaba forçando-os a tomar caminhos diferentes para tentar se salvar. Nessa tentativa, além de cuidar de seus próprios ferimentos, eles procuram meios de continuar acreditando que sua família ainda está viva.
Este é um filme que te deixa desesperado o tempo todo, com uma agonia pelo o que aquelas pessoas estão passando, impossível é não se emocionar e nisso o filme se torna apelativo. O foco é na família e o pós-tragédia, o início com Maria e seu filho Lucas tentando sobreviver é para mim o melhor momento, resgatada por um nativo, é ajudada e levada ao hospital completamente cheio. Maria está muito machucada e adoece cada vez mais, logo depois é mostrado que o pai também sobreviveu com os outros dois filhos, daí segue as cenas de procura em que ele tenta achar Maria e Lucas. Muita coisa incomoda, exatamente por focar apenas numa visão, fica restrito diante a uma tragédia de proporções gigantescas. São cenas melodramáticas, que inevitavelmente te induz ao choro e ao aperto no peito. Sem dúvidas o destaque vai para Naomi Watts, que demonstra a capacidade que o ser humano tem para se refazer.

Se explorassem um pouco mais a história, não necessariamente outros personagens, mas a tragédia em si, talvez o filme ficasse mais crível. Não dá para negar que os efeitos especiais são convincentes, quando a onda atinge, o momento é de pura angústia; Maria agachada perto de uma porta de vidro esperando, enquanto Lucas se joga na piscina e o pai agarra os outros dois filhos.
É um filme que retrata a força da natureza e o como somos pequenos diante dela, mas relata o instinto de sobrevivência, o esforço para poder continuar, a humanidade que nasce a partir de um episódio desses, e o recomeço.
O filme em si não é poderoso, mas funciona, apesar de apelar para sentimentalismos e cansar a quem não é tão sensível. Vale para ver que às vezes o impossível não acontece só nos filmes, pode acontecer na vida real também.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Anna Karenina

A mais famosa história sobre infidelidade já foi retratada diversas vezes para o cinema e por grandes atrizes: Greta Garbo em 1935, Vivien Leigh em 1948, Tatyana Samojlova em 1967, versão russa considerada a melhor adaptação da obra de Tolstói, Jacqueline Bisset em 1985, Sophie Marceau em 1997, e a mais recente interpretada por Keira Knighley, queridinha do diretor britânico Joe Wright, conhecido pelas suas excelentes adaptações para o cinema, como "Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação" e "O Solista".
O clássico de Tolstói não é apenas uma história de traição, ele disserta sobre a sociedade russa e o como ela reagiu ao fato da infidelidade e o silêncio do marido. Tolstói fazia parte da aristocracia russa e por isso os detalhes são precisos, vemos também a preocupação com os camponeses, melhorias no trabalho e a vida no campo. É preciso lembrar que linguagem literária é uma coisa e linguagem cinematográfica é outra, mas a adaptação precisa ter a essência do livro e isso Joe Wright sabe fazer muito bem, ele traz essa história em tom teatral, o que cai perfeitamente, pois na época a sociedade nada mais fazia do que viver encenando.
Século XIX, Anna Karenina é a esposa de Karenin, um rico funcionário do governo. Ela viaja até Moscou para tentar acalmar Dolly, sua cunhada, pois o irmão de Anna, Stiva, um mulherengo, foi infiel e agora o casamento passa por uma crise. Ao chegar na estação de trem ela conhece um oficial, o Conde Alexei Vronsky. Ambos se sentem atraídos, sensação esta que aumenta ao participarem de um baile. Kitty, que era a pretendida de Vrosnky, logo é ofuscada pela beleza de Anna, entre danças coreografadas, a paixão deles aumentam ardentemente. Anna não consegue esquecer Vronsky, nem este a consegue esquecer, entre olhares que denunciam a todos os seus anseios acabam se rendendo ao desejo.
O casamento de Anna aparentava ser normal, uma bela dama, um homem, filho, riqueza, ostentação, mas Anna tinha um grande vazio e Vronsky arrebatou seu coração, ela conheceu a alegria e a dor de uma paixão. Anna foi desprezada pela sociedade, considerada uma mulher sem valor, mas a verdade é que no fundo todas tinham a mesma vontade. O marido Karenin é contido, não exterioriza seus sentimentos, é tido como um santo pela sociedade, defensor da moral e dos bons costumes. Keira Knightley vive uma Anna trágica que ama o filho, mas que é capaz de tudo para viver sua aventura de amor, em meio a uma sociedade que vive de aparências e conveniências é difícil saber se ela estava certa ao se dobrar a uma paixão que de certa forma estava fadada a falhar, já que o sedutor Conde Vronsky não era muito confiável. Entre a estabilidade de um matrimônio considerado perfeito e a paixão descompromissada não é de se estranhar que Anna adoeça e enlouqueça.

Jude Law como o marido Karenin usa de sua versatilidade, se despe de vaidade e mostra que é um grande ator, seus olhares contidos diante a situação é desesperadora, muito religioso ele tenta resgatar a mulher da perdição, ao mesmo tempo em que lida com a mágoa que resulta do orgulho masculino ferido pela traição.
Aaron Johnson como o impetuoso Conde Vronsky se saiu muito bem, esse jovem ator vem se destacando em filmes diversificados e cada vez mais galga seu espaço. O casal Kitty interpretado pela suíça Alicia Vikander (Pura, O Amante da Rainha) e Levin Konstantin (Domhnall Gleeson), mostra o lado mais puro do amor, uma forma de vida comum, baseada simplesmente naquilo que é necessário.
Gostei sobretudo do início que como no livro apresenta Oblonski (Matthew Macfadyen - eterno Mr. Darcy), um chefe de repartição pública que convoca a irmã Anna Karenina para convencer sua esposa Dolly (Kelly McDonald), a não deixá-lo após ter descoberto seu caso com a governanta, mas logo essa parte é deixada de lado, porém é compreensível, já que o foco está na traição de Anna e a reação da sociedade pomposa e espalhafatosa da época.

"Anna Karenina" é uma história que já foi muito adaptada, então o que essa versão traz de novo? A beleza estética, a direção de arte que é perfeita, os figurinos, coreografias, posturas, gestuais, a maneira que colocam as palavras, tudo muito bem cuidado, e o tom teatral faz o diferencial. Mesmo que a critica internacional tenha pegado pesado, Joe Wright mostra que tem ousadia em adaptar um romance de tal porte como é o de "Anna Karenina". Ele modifica, mas não compromete o valor da obra.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Na Escuridão / In Darkness / W Ciemności

Há diversos filmes sobre o holocausto, o tema é incansavelmente e amplamente retratado, mas é nas histórias individuais que se têm os melhores relatos. "Na Escuridão" (2011) é um olhar interessante sobre um grupo de judeus que foram ajudados por um trabalhador, que poderia optar em denunciá-los, já que isto era um meio de ganhar dinheiro, mas ele foi humano e conseguiu salvar muitas vidas nesse período atroz que foi a II Segunda Guerra.
O longa dirigido por Agnieszka Holland é baseado na história real do "goy" Leopold Socha, um "trabalhador dos esgotos" que, durante a ocupação nazista na Polônia, usou seu conhecimento da rede de esgoto da cidade para refugiar um grupo de judeus que escapou do extermínio no gueto de Lemberg. O que primeiramente se iniciou como uma barganha comercial, terminou como um elo de amizade e proteção inquebrável, com Socha arriscando sua vida e de sua família para proteger "seus judeus". Socha, um trabalhador de esgoto e ladrão em Lvov, cidade ocupada pelos nazistas na Polônia, um dia encontra um grupo de judeus que tentavam escapar da exterminação do gueto. Ele os esconde por dinheiro no labirinto de esgotos da cidade. O que começa como um acordo direto e cínico se transforma em algo muito inesperado. A improvável aliança entre Socha e os judeus se torna uma relação que se infiltra mais profundamente na consciência de Socha. O filme é também uma extraordinária história de sobrevivência de como estes homens, mulheres e crianças tentaram enganar a morte certa durante 14 meses de perigo intenso.
O cenário é escuro e claustrofóbico, o ambiente acaba se tornando o lar dessas pessoas, que são caçadas dia após dia, Socha com muito empenho os conduz para outros lugares daquele labirinto putrefato, ele também leva alimento, roupas e conforme convive com eles vê o quão cruel e inumano é a situação que se submetem em razão da sobrevivência. As crianças sofrem por não ver a luz do dia, quando sobem para a claridade, já não conseguem enxergar, é preciso alguns minutos para a vista se acostumar, e quando conseguem já é o momento de descer.
Socha não era judeu, mas sim um trabalhador pobre que tentava conseguir o máximo de dinheiro pra sustentar sua mulher, que por sinal era muito solidária também, e sua inocente filha, que chega a pôr em perigo seu segredo. De início a descoberta dos judeus lhe rendia uma boa quantidade de dinheiro, ele recebia uma quantia por dia para que ficassem escondidos, mas ao perceber a crueldade, seu lado humano aparece e ele os ajuda por pura bondade. É difícil imaginar que por uma bobagem idealista e política as pessoas eram torturadas e mortas.

É um filme triste, mas feliz pelo final em que Socha orgulhoso consegue salvar dez dos vinte judeus que lá estavam, tudo graças a sua boa vontade em meio a guerra. Ele fez justiça em meio ao caos.
Ao mesmo tempo que o filme retrata a frieza, a crueldade e a podridão dos esgotos, a humanidade aparece aos pouquinhos. Quantas e quantas pessoas não foram pegas por terem ajudado os judeus? Este felizmente é um relato positivo. Quando os judeus saíram dos esgotos, Socha não parava de gritar todo feliz: "Esses são os meus judeus."
Socha é o verdadeiro herói, humano, que deixou suas ambições de lado para ajudar o próximo, a cena que ele deixa a primeira comunhão da filha para ir trocar os judeus de lugar porque estava chovendo muito, pois tinha medo que morressem afogados, é uma das cenas mais bonitas.
Como já dito é um olhar particular sobre um dos inúmeros fatos monstruosos que permearam esta guerra. É um filme bem feito e repleto de detalhes.
Socha morreu atropelado anos depois, disseram ser castigo de Deus por ter ajudado judeus. "Como se precisássemos de Deus para punir uns aos outros."

quarta-feira, 20 de março de 2013

As Sessões (The Sessions)

Baseado em uma história real do jornalista e poeta Mark O'Brien, "As Sessões" aborda um assunto pouco explorado no cinema, a deficiência junto com a sexualidade. No filme o tema é tratado com bom humor, mas com muita inteligência e delicadeza. Mark ficou paralisado do pescoço pra baixo quando teve poliomelite na infância, e na época em que escreveu a matéria que mudaria sua vida, precisava passar horas em um "pulmão de aço", para lhe ajudar a respirar fora dele.
No filme Mark (John Hawkes) tem 38 anos e ainda é virgem, seu único amigo é um padre, que faz as vezes de conselheiro, decidido a explorar sua sexualidade ele vai em busca de uma terapeuta que indica Cheryl (Helen Hunt), uma "substituta" que tem como trabalho a iniciação de deficientes para as descobertas da vida sexual. O primeiro a saber sobre sua empreitada rumo ao sexo é o padre, as confissões de Mark mesclam um drama bem sutil com boas doses de humor. Ele precisa da benção para que comecem as sessões com a "substituta", pois é muito religioso, o padre mesmo sabendo que o sexo é considerado impuro pela igreja antes do casamento, acaba o incentivando a novas experiências.
Mark é cativante, bem humorado e charmoso mesmo estando paralisado do pescoço pra baixo, perceba que o marido de Cheryl é mais atrofiado que Mark, que consegue se locomover apenas com uma espécie de maca, com ajuda da cuidadora Vera (Moon Bloodgood), esta que o limpa, o veste e o leva para as sessões e compreende perfeitamente os seus anseios.
Mark consegue mexer com vários corações ao desenrolar da trama, um deles é o da Cheryl, que aos poucos vai se rendendo ao seu romantismo. A terapeuta sexual primeiro o ensina a conhecer e aceitar o seu corpo, perceber os pontos que dão prazer, estimulá-los, controlá-los e assim realizar o ato sexual. Isso demora muito, pois Mark não consegue ter o controle de seu corpo.
Helen Hunt faz de sua personagem ao mesmo tempo independente com mente aberta e sem nenhum tipo de dogmas, porém quando acompanhamos a sua vida particular percebemos que falta afeto, e Mark vem dar isso a ela, mas sua postura profissional continua intacta na frente dele. O poema que ele escreve e intitula: um poema de amor a ninguém em particular, retrata sua alma romântica, sua delicadeza e o bom humor.

"As Sessões" é um filme livre de clichês e melodramas baratos para comover o público, é singelo e nos faz lembrar que os deficientes são mais eficientes do que muitas pessoas com tudo perfeito, mas cujas mentes são atrofiadas. As cenas das descobertas são dotadas de pureza diante ao desconhecido, que para Mark inicialmente se revela como medo, acompanhamos desde seus olhinhos assustados até sua evolução, em que compreende o que seu corpo pede.
Geralmente quando as pessoas veem um deficiente já anulam a possibilidade de haver vida sexual, ou pelo menos têm a dúvida de que ela possa existir, mas enquanto houver coragem e desejo, as possibilidades existirão, não se pode atrofiar desejos, ideias e sentimentos, Mark nos mostra isso da maneira mais linda possível, e que apesar de sua condição é capaz de muito mais do que qualquer um.
"As Sessões" lida com o assunto de maneira natural sem transformar o deficiente em coitado ou em um super-herói, é genuíno e uma bela amostra do cinema americano.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Pink Floyd - The Wall (1982)

Pink Floyd emana diferentes sensações, como liberdade interior, uma espécie de asas internas, calmaria e euforia junto. "The Wall" (1982), foi sucesso de bilheteria, assim como o disco que é considerado o álbum duplo mais vendido da história. É uma obra que saiu da mente criativa de três pessoas: Roger Waters (roteiro, música), Alan Parker (direção) e Gerald Scarf (animações). A história criada pelo então líder do Pink Floyd, trata-se em parte de uma semi auto-biografia, mesclando acontecimentos que fizeram parte da vida do compositor com eventos fictícios. O filme abre com a imagem do corredor de um hotel, aonde Pink, vivido pelo cantor irlandês Bob Geldof, está hospedado, então entramos nas memórias de Pink, indo direto as suas origens, ao seu passado. Vemos um soldado preparando sua arma antes de ir ao campo de batalha. Trata-se do pai de Pink. Aqui entra em evidência um dos fatos mais importantes na vida de Roger Waters, a perda de seu pai na II Guerra Mundial. Este acontecimento, de grande influência em sua formação, refletiu em parte de sua obra, através de críticas ao belicismo.
Toda a história se desenvolve em um devaneio de Pink, sentado em seu quarto, olhando fixamente para a porta. Sonho esse formado por lembranças de sua vida. O filme não tem falas, é todo envolvido pelas músicas do álbum e há sequências de imagens animadas, que metaforicamente explica os sentimentos de Pink. O começo de tudo é a guerra, onde vemos a perda de seu pai, isto o marcará pelo resto da vida, vemos uma cena em que ele sente a falta do pai e vê em um homem no parque a figura paterna que lhe falta, mas após ser rejeitado por este homem, percebe estar sozinho e apenas olha as outras crianças acompanhadas por seus pais. Nesta fase as músicas "In the Flesh", "Good Bye Blue Sky", "When the Tigers Broke Free" são as que introduzem o tema guerra na vida do garoto. Então o primeiro tijolo foi colocado no muro que em breve se erguerá, e segue a canção "Another Brick in the Wall - Part I".

"The Happiest Days of Our Lives" insere o tema educação, Roger Waters define a educação como alienação, logo na infância as crianças perdem a identidade fazendo o que os outros querem que façam, logo essas mesmas crianças destroem e colocam fogo na escola, e cantam "Another Brick in the Wall - Part II" sob forma de revolta contra a educação. E mais um tijolo vai para o muro. Também vemos o relacionamento com sua mãe superprotetora e uma dependência extrema deste garoto a ela. A música "Mother" acompanha esta fase. Depois vem a traição de sua mulher, pois ele demonstra desinteresse perante a ela, embalado pela música "Empty Spaces", a imagem animada de duas flores brigando representando o feminino e o masculino, indica que no início a paixão é o fator dominante em uma relação, mas que com o passar do tempo um acaba engolindo o outro. Pink vê a chance de descontar a traição em uma daquelas mocinhas que fazem de tudo para ficar com o ídolo, atraído pela garota sexy a leva para seu quarto de hotel, mas termina explodindo toda a sua raiva quebrando tudo em cima dela. E então, Pink dá adeus ao mundo real, em "Good Bye Cruel World", e começa a viver no mundo que ele construiu. Nesse momento a história se desenrola em duas linhas: o mundo real e o mundo dentro de seu muro psicológico. Enquanto, na vida real, Pink acaba com todos os pelos de seu corpo, inclusive as sobrancelhas, em seu mundo dentro do muro ele viaja, e nessa parte as músicas "Is There Anybody Out There", "Nobody Home" e "Vera" acompanham. Essa viagem seria como um momento de reflexão, onde ele analisa os motivos que deram origem a cada tijolo. Pink acaba encontrando o pai morto em uma vala e a si próprio na idade adulta.

Depois durante um show, Pink expõe todo seu desdém pela platéia através de ataques a minorias discriminadas (reflete o período em que Waters estava bem chateado com o público), mas esse episódio serve como crítica à ideologias de extrema direita, melhor exemplificadas pelo fascismo e pelo nazismo. Os dois martelos cruzados, representa o desejo de se derrubar o muro, ou seja, se libertar das angústias e viver normalmente.
Em "Stop", Pink cansa de lutar. O muro é mais forte, a batalha não é nada fácil. Em seu devaneio, Pink é preso por ser "nazista". Na vida real, um guarda encontra Pink cansado no show sentado ao lado do sanitário. A vida toda ele construiu um muro para se isolar de uma sociedade da qual ele julgava não fazer parte, por ser e pensar diferente, mas conforme se isolava, isso o deixava cada vez mais pirado se questionando sobre este muro que com o tempo construiu. Derrubá-lo significaria sair pro mundo e enfrentá-lo. Na sequência final, toda em animação, Pink é julgado por ter optado pelo isolamento e todas as pessoas com quem se relacionou durante a vida são chamadas a depôr. Esposa e professor o consideraram culpado, enquanto a mãe continuava com seu comportamento superprotetor.
A canção "Outside the Wall" retrata as pessoas que estão do lado de fora do muro, e que amam a pessoa que está do lado de dentro isolada, mas não são vistas por esta. Ao final quando o muro é derrubado vemos crianças recolhendo os tijolos, limpando a sujeira.

"The Wall" é uma viagem exclusiva à mente de Roger Waters. É um deleite para os fãs que saboreiam imagens surreais, acompanhadas de pensamentos e sentimentos. E um deles é: "Somos apenas mais um tijolo no muro."
Diante a este pensamento tento todos os dias destruir um pouco do muro que andei construindo com o tempo, por não me aceitarem, por ter vergonha de certas coisas, por pensar diferente, etc. Hoje tenho a certeza que não quero ser apenas mais um tijolo desse muro. Viver de acordo com as regras impostas e seguir cegamente um sistema ridículo que nos move, ceder as influências capitalistas, de ideologias baratas e mentiras sensacionalistas, isso faz de nós apenas mais um entre tantos, temos que viver conforme nosso instinto, não desmerecendo o que somos para agradar o meio em que vivemos. A solução não é construir um muro para separar os mundos (interno e real), mas sim questionar para não ser mais um tijolo deste muro.
"The Wall" é uma obra conceitual, interpretativa, criativa e uma experiência extasiante.

sexta-feira, 15 de março de 2013

A Viagem (Cloud Atlas)

"A Viagem" (2012) tem dividido opiniões, o que para alguns é algo fantástico, genial e que aborda diversos temas, para outros é um filme pretensioso, confuso e recheado de filosofia barata.
Baseado no livro homônimo de David Mitchell, o longa pode ser considerado a adaptação mais confusa e complexa já feita, mas a verdade seja dita, houve muita coragem e ousadia ao transpassá-lo para a telona. A história segue uma linha espiritual, onde nos diz que tudo está conectado, há muitas teorias abordadas, como a do Caos, Nova Era, Karma e Reencarnação.
Dirigido pelos irmãos Wachowski (Matrix) com parceria de Tom Tykwer (O Perfume) compõe uma rede de histórias que são assimiladas aos poucos e que de fato dão sentido ao final de tudo. Não é um filme imediato, ele demora a chegar até nós, mas nos prende, pois não se pode negar a interessante conexão entre os personagens. Mexe com nosso intelecto, nos questiona sobre crenças, outras vidas, existência de um Deus, e por isso é controverso.
O filme conta seis histórias em diferentes épocas. Em 1849, Adam Ewing é um advogado enviado pela família para negociar a compra de novos escravos. Ao retornar para casa, ele salva um escravo e é envenenado pelo próprio médico. Em 1930 acompanhamos a história sobre um amor homossexual proibido, o jovem e talentoso compositor Robert Frobisher ajuda o também compositor, e já idoso Vyvyan Ars a compôr uma obra-prima musical. Em 1970, a jornalista Luisa Rey conhece Rufus Sixmith, quando o elevador que ambos estão quebra. Tempos depois, ele a procura para revelar que estão encobrindo uma série de falhas no projeto de construção de um reator nuclear. Os dias atuais relata de forma engraçada a tentativa de fuga de um editor de livros que foi colocado em uma casa de repouso. Em 2144, chegamos a cidade de Nova Seul, em uma ficção científica que conta a história de uma empregada de uma cadeia de restaurantes que acaba se tornando a líder de uma revolução. E por fim, em um futuro pós-apocalíptico, a Nova Seul foi tragada pelas águas há 100 anos. Zachry, líder de uma tribo venera Sonmi como se fosse uma deusa. Sua vida muda quando Meronym, que integra um grupo evoluído chamado Prescients, lhe pede para viver com sua tribo.
Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James Darcy, Xun Zhou, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant, entre outros fazem vários personagens ao longo do filme, alguns ficam irreconhecíveis com a maquiagem, vemos ocidentais se tornando orientais, negros em brancos, o que indica que podemos voltar em qualquer lugar e de qualquer jeito.

Uma das metáforas mais interessantes do filme é a do restaurante, onde há os clones que lá trabalham, tudo em prol da ganância, o mundo capitalista impera, os fortes exploram os mais fracos, retrata uma espécie de sociedade em camadas, uma sociedade de palavras fáceis que mobilizam massas, a exploração do indivíduo, o futuro da humanidade, e então no que acreditar afinal? O filme permite uma viagem num sentido mais espiritual da palavra e aborda temas como o amor homossexual, lealdade, amizade, o ato de criar (música), ganância, etc. É uma enxurrada de definições e interpretações, é amplo como a nossa vida.
"A Viagem" é uma experiência que cabe a cada um decidir se vale a pena ou não, é um filme esquecível, tem seus méritos, mas não chega a ser profundo para o que propõe. A mim o simples sempre leva mais à reflexão do que artimanhas de efeitos visuais e histórias que pareçam complexas. Mesmo que a trama se complete, é um pouco maçante a quem o assiste, e essa impaciência acaba gerando o oposto da reflexão.
É interessante como algumas histórias não pareçam ter relações, ou não são tão óbvias, mas que de algum modo mais pra frente se encaixam. Devo admitir que para quem reclama que o cinema anda sempre igual, aqui há uma opção diferente, um filme ambicioso e que faz o que muitos não tem coragem de fazer, cutucar o espectador, invadir seu íntimo e mexer com conceitos predefinidos.

Não é um filme difícil, verdade que o início causa confusão, mas é porque as histórias estão sendo apresentadas, depois de 30 minutos as coisas engrenam. Mesmo que o filme não seja grandioso, há pontos positivos. Cinema é realizar o impossível e "A Viagem" é um livro considerado inadaptável, tamanha sua complexidade.
As pessoas tem um senso crítico negativo que se sobressai, vejo adjetivos como pretensioso, presunçoso, intelectualoide, pseudo-cult, na verdade essas pessoas que dizem isso não sabem apreciar um filme, se focam ao detonar ao invés de tentar entender.
Outras vidas, passado, presente e futuro, tudo está conectado. A verdade é que somos sozinhos neste mundo, viemos e voltamos sós, mas em vida convivemos com pessoas das quais gostamos por algum motivo e outras que não há explicações, simplesmente amamos. Ta aí mais uma coisa que o filme aborda, o amor eterno.

Sempre tive o pensamento de que não podemos jamais desfazer, humilhar, desprezar alguém, pois algum dia talvez precisaremos desta pessoa. A vida é um ciclo, um dia ela vai voltar para onde tudo começou. O que nasce, morre, tudo volta ao seu ponto de origem.
Interpretações a parte, vale a pena conferir o tão discutido "A Viagem", filosofia de boteco ou não, rende muitas conversas sobre.

"Nossas vidas e escolhas, cada encontro, sugere uma nova direção possível."

"Do útero ao túmulo, estamos ligados uns aos outros. Passado e presente. E para cada crime e cada bondade, renasce nosso futuro."

"Medo, fé, amor. Fenômenos que determinam nossas vidas. Essas forças começam bem antes de nascermos, e continuam após nossa partida."

"Ser, é ser percebido. E assim conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos do outro. A natureza de nossas vidas imortais, está nas consequências de nossas palavras e ações, que vão, e estão se esforçando a todo instante."

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Porco Espinho (Le Hérisson)

"O Porco Espinho" (2009) baseado no romance "L'élégance du Hérisson", de Muriel Barbery é um filme delicado, com um roteiro primoroso que se apega a detalhes, a pequenas grandes paixões dos personagens, o que faz deles interessantes aos nossos olhos. 
Paloma (Garance le Guillermic) tem 11 anos e mora em um apartamento de luxo com seus pais e sua irmã. Considerada excêntrica, ela tem o hábito de ficar filmando o dia a dia de sua família e seus vizinhos. Também estuda japonês, gosta de gatos e de desenhar, mas mesmo assim é entediada. Decide, então, se matar no dia de seu aniversário de 12 anos. Ela resolve fazer diversas filmagens enquanto não chega o dia. O que Paloma deseja com essas filmagens? Documentar seus últimos dias ou de certa forma, se aproximar das pessoas? Paloma diariamente planeja sua morte, pensa em pular da janela, perfuração com faca no abdômen, mas acaba por decidir tomar uma quantidade abusiva de remédios, todos os dias retira da caixa vários antidepressivos de sua mãe. A menina se sente triste e não consegue enxergar naqueles de seu convívio algo que poderia fazê-la mudar de ideia. Sua mãe faz análise a dez anos, mesmo período que passou a consumir medicamentos e bebidas descontroladamente, além de conversar com as plantas; o pai é um burocrata, funcionário público do alto escalão sempre a mercê dos joguetes políticos; a irmã mais velha é apenas uma adolescente fútil e insensível. Paloma vê neles somente personagens para seu filme. Mas a vida costuma nos presentear com pessoas adoráveis e de alguma forma a zeladora do prédio foi esse presente pra ela.
Renée Michel (Josiane Balasko) é uma mulher de cinquenta e quatro anos, sua única companhia é seu gato Leo. Quase sempre invisível aos olhos dos moradores, mesmo que às vezes este fosse seu real desejo. Certo dia, ao levar o gato de Renée para dentro da casa, Paloma percebeu um livro aberto em cima da mesa ao lado de um tablete de chocolate e uma xícara de chá. Aquela menina admirou-se então pela possibilidade daquela zeladora ser uma leitora de livros densos e interessantes. Paloma só teve tempo de filmar o livro e sair rapidamente da casa. Nos próximos dias Paloma resolve se aproximar de Renée, que em sua opinião parecia ter encontrado o esconderijo ideal: ser uma zeladora. A chegada do Sr. Kakuro (Togo Igawa) acende mais a curiosidade dela, pois em uma conversa no elevador, os dois comentam que Renée talvez tivesse um segredo. No dia em que Renée e Kakuro se conhecem, uma conversa amigável se dá entre eles, à medida que ela citou que "todas as famílias felizes são iguais", Sr. Kakuro rapidamente completa sua citação, "as infelizes o são cada uma à sua maneira". A mulher simples conhecia Tolstói e era apaixonada por gatos, uma bela afinidade começou a partir desse encontro.

Kakuro dá de presente a Renée um exemplar de Anna Karenina, ela fica encantada, mas sem graça por um homem tão rico e elegante ter notado ela, uma simples zeladora. Os dois começam a se encontrar para jantar, assistir filmes, conversar, e a mudança em Renée se faz lindamente, ela se arruma, corta o cabelo, mas mesmo assim se acha uma mulher feia, mas como Paloma a definiu, ela era como um porco espinho, ninguém chegava perto, era dura, mas por dentro era sábia e tinha uma elegância particular. Esse momento que a menina descreve e compara Renée a um porco espinho é uma das cenas mais belas do filme, junto com a que ela filma a zeladora e pede que esta conte sobre si mesma.
Para Paloma, Renée tinha encontrado a maneira ideal de se esconder do mundo, não ser enxergada por ninguém, mas mesmo assim conseguir se alimentar mentalmente dos livros. Sr. Kakuro, Renée e Paloma tinham em comum a solidão, a paixão pelos livros, a sede de conhecimento e a afeição pelos gatos, grandes companheiros dos solitários. Eles viam o mundo de uma ótica diferente, conseguiam ver além do pano que encobre o cotidiano, a rotina. Paloma enxergava seus familiares numa espécie de aquário, presos num tipo de vida da qual ela não queria fazer parte. Muitos dos espectadores podem questionar sobre essa menina tão nova já ter essas ideias existenciais, pensar em suicídio e ver seus pais do lado de fora do aquário em que vivem. Ela tem o mesmo que habita em Renée e Kakuro, a ânsia do saber.

A morte em si não é importante, mas sim o que se está fazendo quando ela acontece, essa é a grande tragédia, e o final triste retrata bem isso. Renée, anos sem ser vista por alguém encontrou em Kakuro, um ser semelhante a ela, e decididamente estava pronta para amar.
Acontece uma grande mudança em Paloma dada as circunstâncias, o peixinho que certa vez ela jogou pela descarga por pensar estar morto, depois de ter dado um comprimido ansiolítico, ressurge na privada de Renée, e nada mais simbólico que isso, um renascimento da própria menina, e o entendimento de várias nuances da vida.
Muitas pessoas que se sentem inadequadas ao mundo se fecham em seus próprios, porém os de fora passam a não enxergá-las mais. Aqueles que se julgam elegantes não o são na verdade, a elegância está muito além, está dentro daquele que cultiva em si conhecimentos e paixões.

terça-feira, 12 de março de 2013

Lena

"Lena" (2011) é uma história crua e fria, podemos perceber isto pela protagonista, seus olhares sempre vagos mesmo diante a uma aparente felicidade. O filme se faz pela atuação e não pela trama em si. 
Lena (Emma Levie) é uma adolescente gordinha e solitária que vive de maneira simples com a mãe divorciada e motorista de ônibus. A mãe se acha uma derrotada e se afunda na bebida, quando a frustração é mais forte ela transfere para Lena, lhe agredindo  de uma forma verbalmente violenta. Quando não está em casa cuidando da bagunça da mãe, Lena divide seu tempo entre a escola, um grupo de dança country e o estágio em uma creche. Ela também se entrega ao sexo casual como fuga de si mesma.
O filme se inicia exatamente com uma cena que Lena faz sexo em um canto qualquer, vemos a ausência em seu olhar desde o primeiro minuto do longa. Sua vida muda quando conhece Daan (Niels Gomperts) um rapaz bonito, despreocupado, que vive com o pai viúvo, um homem que parece nem existir na casa. A maneira como eles se conhecem é estranha, Daan está correndo desesperado, fugindo de algo e Lena lhe dá carona de moto. O moço diferente das outras pessoas do convívio de Lena a trata de forma natural e carinhosa, logo eles se envolvem e começam a namorar. Do dia pra noite ela já vai morar na casa do rapaz, com o propósito de fugir de sua mãe. De início o relacionamento é maravilhoso, mas com o tempo Lena descobre que Daan mentiu sobre as coisas que andava dando de presente para ela. O ponto crucial é quando a polícia bate na porta da casa, assim ela decide terminar e voltar para sua mãe, mas esta a recusa e Lena fica sem ter para onde ir.
O pai de Daan a encontra e a leva para casa e diz que pode ficar lá, mesmo não estando mais com seu filho. Este homem antes um zumbi, começa a viver, mas o que parecia ser apenas uma coisa paternal, se torna uma paixão quase obsessiva. Nesse período Lena decide dar mais uma chance a Daan, se ele prometer voltar a estudar e se comportar, ela não vê outra saída para si mesma a não ser aceitar os fatos, pois na casa de sua mãe não voltaria mais. As coisas se complicam quando começa a manter uma relação mais profunda com o pai de Daan, mas por pura opção dela. A situação vai ficando insustentável e sai de seu controle, desse modo acaba contando tudo a Daan, que revoltado tira satisfações com o pai, e este pede para que Lena conte como tudo aconteceu na realidade, mas ela a fim de que tudo isto termine age de forma impulsiva dando um fim trágico a situação. A atuação de Emma Levie é absolutamente fantástica, ela realiza cenas complicadíssimas e seu olhar continua impenetrável.

Lena conhecia apenas um tipo de mundo, com a influência de uma mãe louca, que transitava entre superproteção e ofensas, relacionamentos errados, uma visão de sexo casual, não tinha outra opção a não ser seguir o mesmo caminho, ela não tinha ideia do que era se envolver de verdade, o que sentia por Daan não era amor, mas sim, um meio de viver. Com o pai dele ela sentiu algo diferente e saiu fora de seu mundo, o que gerou o descontrole e a fez reagir de forma instintiva.
Como Lena estava habituada a seu modo de viver não conseguiria comandar um relacionamento sério, e mesmo que pareça o inferno na terra ela preferia voltar a sua vida da qual já estava familiarizada, uma espécie de porto seguro, por esse motivo a vemos como uma moça doce, embora com um imenso vazio dentro de si.

domingo, 10 de março de 2013

Negro Queimado (Svidd Neger)

"Negro Queimado" (2003) é um filme estranho, nonsense, com muitas situações bizarras e de um humor nada convencional. Ante é um garoto negro, isolado no norte da Noruega, que foi colhido no mar, ele pensa ser "finlandês" e passa a maior parte do tempo com um penico na cabeça, colhendo cogumelos na floresta. Tem como irmão adotivo um gordo "masturbador compulsivo". Vivem com a mãe viciada em palavras cruzadas, próximos de outra granja onde moram Karl, um bêbado assassino que usa vestido, e sua filha Anna, uma loira que gosta de cantar expondo seus adoráveis dentinhos tortos. Sua vida é bisbilhotada diariamente por um norueguês disfarçado de lapão chamado Normann Haetta Bongo Utsi Saus, que sonha ir para um certo país onde todos vão ao psiquiatra. Enquanto isso, ele passeia pelas montanhas na companhia de sua rena e de um telefone, no qual recebe ligações da mãe. Violinistas fazem aparições esporádicas. A certa altura, um padre mais louco que todo mundo junto surge de pedalinho por entre os fiordes para dar a benção ao casal Anna e Peder.
Em um momento o pai bêbado de Anna acha que vê o fantasma de sua esposa morta e tenta afogá-la no mar, mas quando ele se dá conta está segurando a cabeça de uma vaca em suas mãos, da qual ele dá para a mãe de Ante. Depois que a casa de Peder, Ante e sua mãe pega fogo, eles vão morar na fazenda de Karl, este quer um herdeiro, e tenta juntar sua filha com Peder, Karl vive dizendo o quanto ele é forte só para fazer todo o trabalho da fazenda. Ante apenas observa, fuma e come cogumelos, mas também gosta de Anna, o menino não sabe que é negro até que o escandinavo aparece e lhe diz.
Um dos fatores interessantes são os diálogos, as palavras utilizadas do vocabulário da região do norte da Noruega. O título do filme foi colocado em questão antes do lançamento por parecer racista, mas é mais uma ironia absurda e sem sentido do que qualquer outra coisa.
Anna encontra furtivamente o escandinavo, a cena que a mãe de Peder detecta que Anna está grávida é surreal, ainda mais porque sua barriga cresce do nada, acreditando ser de Peder os dois se casam, mas acabam descobrindo que é do escandinavo, depois disso são cenas doentias, até que surge o pai de Ante e resgata ele e Anna de pedalinho e vão rumo à América.

Para quem gosta de filmes de situações nonsense, esse é o que há. O velho Karl bêbado de vestido é impagável, é uma das cenas mais loucas. Sem dúvidas uma comédia incomum.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Eu Existo (Jestem)

"Eu Existo" (2005) entrou para minha lista dos filmes mais belos que vi. É daqueles que chegam devagarinho, e ao final ficamos completamente absorvidos pela história. É de uma delicadeza poucas vezes vista no cinema, é triste, mas ao mesmo tempo singelo e inocente. É existencialismo puro.
Um menino na faixa dos dez anos se vê perdido diante ao fato de não ter ninguém no mundo, ele tenta encontrar seu lugar, mas sem muito sucesso. De início o vemos no orfanato sendo ridicularizado pelos amigos, ele não entende o porque de estar lá, já que tem uma casa e uma mãe. Ao fugir e retornar ao seu lar encontra sua mãe, uma prostituta alcoólatra repleta de problemas, eles acabam brigando e o menino sai correndo. Sem ter para onde ir e o que comer, ele vaga até encontrar um velho barco abandonado em frente a casa de uma família rica, e se estabelece lá. Ele passa os dias pensando na vida e vendendo toda a sucata que consegue para obter seu alimento. O filme começa a ficar realmente bonito quando o menino é descoberto pela garotinha da casa, ela se sente exatamente igual a ele, mesmo tendo todo o conforto. Sua irmã mais velha e muito linda, de certa forma sente ciúmes da amizade e amor que cresce entre os dois, e é ela que definirá o rumo da história. Kuleczka, a jovenzinha sente-se feia e bebe escondida, Kundel, o garotinho abandonado não se mistura com os outros meninos de rua, pois estes usam drogas e vivem se metendo em encrencas. É difícil encontrar um lugar no mundo quando não há ninguém que o direcione e o ame, se sentir excluído de tudo como se fosse um animal, um inútil. Há cenas grandiosas, das quais mexem com nosso coração.
Kundel sobrevive de vender sucatas e numa de suas idas ao lugar o velho quer pagá-lo dando vários gatinhos, mas o menino se recusa, pois não há comida nem para ele, quando ele retorna e pergunta dos bichinhos o velho lhe diz que os afogou no rio, o menino pergunta o porquê e o homem responde que ninguém precisava deles, não tinha serventia alguma. Então, Kundel pensativo diz: "Por que não me afoga, você também não precisa de mim". É tão espontâneo que esse momento nos arranca tanto o choro como o sorriso.
Com o tempo as duas crianças se aproximam mais, fazem confidências e conversam sobre um possível futuro, o que esperam para si em um mundo do qual não pertencem. Kundel tenta mais uma vez ir ao encontro de sua mãe, mas ela o rejeita da pior forma. Arrasado volta para o único mundo que tem, junto de sua amiga especial. Ele chora ao lado dela e pergunta o que fez para que sua mãe não gostasse dele, a menina simplesmente diz: "Você existe!".

Kuleczka leva todos os dias um sanduíche a Kundel, este espera ansioso pela sua chegada, a sua única companhia, a pessoa que gosta dele e o entende, numa dessas ao morder o lanche encontra um bilhetinho escrito: "Eu Te Amo". O sorriso dele diante a frase é inexplicável, é o amor no seu estágio mais puro e inocente. Amar pelo simples fato da pessoa existir.
Outro ponto positivo vai para a fotografia que dá o toque de solidão que o filme possui, os atores mirins são incrivelmente naturais, é bonito ver crianças atuando desta forma, pois o brilho do olhar diante a câmera ainda possui aquela inocência, as sutilezas, como o sorriso de canto de boca de Kundel quando se sente feliz, pois alegria é uma estranha pra ele. O fim é triste, mas dotado de uma beleza muito peculiar, percebemos que o menino encontra seu lugar ao afirmar que ele existe, mesmo que o mundo não o perceba, há quem o ame e isso é o que dá a certeza de sua existência.

Essa é daquelas histórias pequenas e simples que nos edifica e nos faz querer ser melhores uns com os outros, vivemos num mundo onde ninguém se importa com ninguém, onde crianças são rejeitadas por suas mães e nem todas conseguem achar seus caminhos, a inocência se perde e a vida se torna insuportável cedo demais, pois o valor de alguém é medido pelo status, beleza, sociabilidade, sobrenome, essa é a única realidade aceitável, as outras são invisíveis e esquecidas.
É por isso que vale a pena assistir filmes bons que nos acrescentam algo, que ficará guardado com muito carinho na memória. "Eu Existo" é filme para rever durante o decorrer da vida, é sutil e leve ao tratar de um tema tão triste, a dificuldade de se descobrir perante ao mundo e se afirmar mesmo que este o rejeite.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee Raleuk Chat)

É extremamente difícil falar sobre "Tio Boonmee", mas não posso deixar de fazer algumas observações e compartilhar minhas percepções. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano de 2010, o filme pode ser considerado um gênero de fantasia alternativa, ou espiritual. A nós ocidentais a primeira impressão que passa é logo comparar os acontecimentos com a religião espírita, mas a verdade é que é algo muito além de qualquer rótulo. Falar em espiritualidade e a evolução desta enquanto ser humano pode soar mera bobagem a algumas pessoas, mas o que realmente "Tio Boonmee" quer passar em forma de simbolismos é a nossa relação com a morte e dizer que natureza e homem são uma só coisa, nos unimos a ela quando morremos, um ciclo que termina onde tudo começou. Muitas pessoas acham que a natureza está distante de nossa condição como ser humano, mas acontece que estamos ligados a ela desde o princípio.
Apichatpong Weerasethakul ou Joe como o próprio diretor tailandês se apelidou, dada a dificuldade de pronunciar seu nome, mostra o quanto estamos longe de compreender tudo, até porque nós lidamos com a vida, a morte é algo que está fora de nosso entendimento. Acredito que uma pessoa mais espiritualizada consiga captar vários dos simbolismos expostos, aquele ser humano que busca se conhecer, que consegue pensar de forma ampla, que identifica sua essência, tem consciência de que tudo termina e de que estamos conectados com a natureza sendo uma só coisa. Mas por um outro lado a pessoa que está distante destes conceitos não consegue absorver e tão pouco entender o termo espiritualidade.
Tio Boonmee é interpretado por um ator não-profissional e é isso que funciona ao dar naturalidade à história. O personagem é viúvo e está com um problema nos rins, ele volta para uma região de florestas no nordeste da Tailândia. Lá conta com a companhia da cunhada Jen, o primo Tong e Jaai. Num jantar, uma espécie de despedida, a barreira entre os vivos e os mortos se rompe. A falecida mulher de Boonmee, Huai vem fazer uma visita. A chegada dela, um espírito, não poderia acontecer de forma mais natural, sem qualquer alerta de que um fantasma entrou em cena. Ela se senta à mesa e começa a compartilhar da conversa. Nesse momento, recordações e pontas soltas do passado e presente se tornam o assunto. São conversas melancólicas, mas que se desenrolam sem qualquer estranhamento.

Outra figura peculiar torna a ceia ainda mais especial, trata-se de Boonsong, o filho perdido de Tio Boonmee, que retorna como um espírito em forma de macaco e cujos olhos são vermelhos. 
Apichatpong destrói a linha que divide o real e o imaginário, a vida e a morte, a existência e a ausência. A morte é tratada de forma muito natural, um acontecimento tranquilo, uma fase da qual Tio Boonmee está passando.
É um filme completamente sensorial e feito de imagens, o ritmo é lento, como se tudo tivesse o tempo certo para acontecer, a natureza é muito presente, ela é uma personagem e não há coisa mais bela que a trilha sonora da floresta que acompanha a despedida de Tio Boonmee do mundo físico. É complicado compreender outras tradições, outras formas de enxergar a morte, os tailandeses tem uma calma natural ao lidar com este assunto.

"Tio Boonmee", Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" é cinema experimental e de certa maneira hipnótico, há cenas incompreensíveis e talvez nem tenham explicações. Em meio a nossa vida cotidiana tão automática e rasa, "Tio Boonmee" aparece para abrir nossos olhos, e mesmo sem compreendê-lo já vale a pena para pensamentos novos virem à tona, e saber que existem diversos jeitos de encarar a morte.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Em Nome de Deus (The Magdalene Sisters)

"Em Nome de Deus" (2002) dirigido por Peter Mullan é baseado em fatos reais, a história se passa em um asilo, onde meninas eram enviadas para "lavar" seus pecados. Todo mundo conhece a história de Maria Madalena, aquela prostituta que se redimiu e foi pro céu, o nome do lugar era por conta disso. Os motivos de as meninas serem enviadas para lá variavam entre terem perdido a virgindade, terem filhos antes do casamento, ou mesmo aquela que chamava mais atenção dos garotos por ser bonita também era jogada no antro católico.
O filme é contado sob o ponto de vista dessas jovens, que de repente encontram-se num pesadelo interminável. São apresentadas três jovens mulheres que foram internadas numa destas casas no ano de 1964: Margaret (Anne-Marie Duff), Bernadette (Nora-Jane Noone) e Rose (Dorothy Duffy). Na introdução do filme descobrimos os crimes cometidos por elas: Margaret foi condenada por ter sido estuprada pelo primo e não guardar o fato dos pais e da sociedade, Bernadette, uma moça muito bonita que atrai os olhares masculinos, não se preocupou em esconder sua beleza e sensualidade; Rose contrariou os costumes conservadores e engravidou antes do casamento, sendo obrigada a entregar seu filho para adoção. A irmã Bridget punia as meninas por tudo, se falassem com alguém de fora, se tentassem fugir, se desobedecessem as irmãs e se conversassem entre si. Trabalhavam o dia inteiro e comiam uma comida bem inferior a das irmãs. Em uma tentativa de fuga, uma garota é submetida a maus tratos e raspam completamente a cabeça dela a fim de que sua vaidade suma e não tenha mais vontade de ir embora.

Observe, a igreja não tinha poder legal para trancafiar as meninas, mas os próprios pais as levavam lá, a sociedade fingia não ver e tão pouco desafiava a igreja. Outro ponto é o tanto de dinheiro que entrava, pois elas trabalhavam escravizadas, em uma cena vemos a freira guardando o dinheiro que arrecadava. O filme traz a visão de que a igreja católica sempre foi cruel e fundamentalista, escondendo fatos, mas a sociedade se acostumou a isso e nunca protestava. Muitas coisas se fazem em nome de Deus sem ao menos serem questionadas. O longa abre os olhos para aqueles que confiam cegamente em uma religião, seja ela o catolicismo ou não. 
Bernadette era a mais desafiadora, a cena em que decide fugir demonstra isso, ela leva Rose junto de si, as duas escapam daquele lugar e conseguem refazer suas vidas anos mais tarde, mas sempre com o fantasma desse passado cruel em suas mentes. Margaret, a que sofreu abuso do primo foi resgatada pelo irmão, que sempre acreditou nela, mas não podia fazer nada, pois era uma criança quando aconteceu, anos depois já adulto buscou-a. Uma outra personagem de grande valia é Crispina, aparentemente retardada, com o passar do tempo seu comportamento foi piorando, e acabou sendo enviada para um sanatório.

Os lares Madalena, na Irlanda, eram de responsabilidade das Irmãs da Misericórdia, em nome da Igreja Católica. Jovens mulheres eram mandadas por suas famílias ou pelos orfanatos e, uma vez lá, ficavam confinadas e obrigadas a trabalhar na lavagem de roupas, onde poderiam expiar seus pecados. Os pecados variavam entre ser mãe solteira, ser bonita ou feia demais, ter problemas psicológicos, ser ignorantes ou inteligentes, ou vítimas de estupro. E por seus pecados, elas trabalhavam 365 dias por ano, sem remuneração. Eram mal alimentadas, surradas, humilhadas, estupradas, e seus filhos levados à força. A sentença dessas moças era indefinida. Milhares de mulheres viveram e morreram nesses lares. O último Asilo Madalena na Irlanda foi fechado em 1996.
O longa foi criticado pelo Vaticano como "provocação cheia de ressentimento", o filme feito com orçamento pequeno foi premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2002.
A igreja católica tem diversos fatos escondidos e quando alguém decide retratá-los, ela vem alegando calúnia e provocação. Somos livres, escolhemos no que acreditar e como devemos viver a nossa vida, ninguém tem o direito de nos prostrar, religião nenhuma pode enclausurar-nos numa única forma de pensar.